Afinal, o quê significa ser "aventureiro"?


  Jaisalmer, Cuzco, Luang Prabang, Nepal  4451 visualizações

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Inauguro essa coluna relembrando um evento já datado de alguns anos. Certa vez estive na capa de um jornal local estampando "O  Incrível Homem da Estrada", com uma reportagem convidando a conhecer o "aventureiro" Eduardo Cidade. Naquela mesma noite, na mesa do bar  com outros mochileiros, mencionei  a estranha sensação de ter o adjetivo "aventureiro" anexado ao seu nome na reportagem de capa de um jornal. Então  eu sou um aventureiro - mas quando foi que isso aconteceu?

Minha primeira viagem ao exterior foi aos cinco ou seis anos de idade. Meu presente de aniversário fora conhecer o Pato Donald, meu ídolo infantil. Lembro ter tirado  uma foto com ele em um dia nublado. E pintei de canetinha um arco-íris para simbolizar um dia feliz, evidentemente arruinando a foto. Mas eu não era um aventureiro na época! Talvez fui até uma criança medrosa! Tive medo do King Kong e não me atrevi a entrar nem na Space Moutain, nem na Casa Mal-Assombrada.  E morri de medo, abraçando nos meus pais, no Terremoto da Universal Studios. Gostava de festas - que, aliás, ainda gosto. E de shoppings que, ao passar dos anos e das viagens, perdi a paciência. Do que adianta estar com a calça da Diesel quando se está todo sujo após acampar no mato e dormir um dia inteiro no ônibus?

Logo, quando foi que isso aconteceu, quando - se é que eu sou - me tornei "aventureiro"? Foi quando desembarquei em Budapeste, aos 20 anos no meu primeiro mochilão de um ano, e experimentei a solidão e a sensação de estar perdido pela primeira vez? Foi quando dormi na praça pública em Barcelona? Ou foi quando atravessei a costa da Tunísia de bicicleta? Em nenhuma das ocasiões: eu simplesmente segui em frente, sem achar que estava me tornando mais ou menos aventureiro ao fazê-lo.

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Muitas pessoas já me perguntaram se eu sinto medo. A resposta é: não, não sinto. Mas nem sempre foi assim. Eu já senti medo. Na mesma Budapeste, o rito de passagem mencionada na tal reportagem reportagem e no prólogo da minha dissertação, eu senti vontade de chorar por conta da solidão, da sensação de desemparo, de não ter para onde ir e não saber o que fazer. Eu senti muito medo quando dormi com os mendigos na estação de trem em Florença.  Hoje, diante uma situação à la Budapeste, minha reação é simplesmente arregalar os olhos  e pensar, "ai, que saco! Vamos ver se ao menos encontro algo divertido para amenizar", mas, insisto - eu não nasci desse jeito! Apenas é o modo como penso: quero fazer X. E fazer do modo mais divertido. O navio é mais interessante do que o avião. Pegar carona de moto é mais legal do que ficar exprimido no ônibus. Não é para ser "aventureiro", não é a minha intenção. É apenas para ser agradável.  Aeroportos são chatos, em geral ficam nos cafundós do brejo em relação ao centro da cidade, aniquilam o improviso da viagem de última hora (comprar passagem de avião barata quase inevitavelmente requer antecedência) e não tem transporte público. Ou é táxi ou algum ônibus tipo frescão, também caro. E têm alfandêgas entediantes. Em navios, você sempre encontra outros iguais a ti, que só pagaram para embarcar, sem ter onde dormir. Daí surgem as altas conversas madrugada afora regadas à vinho. Muitas vezes eu tenho a plena consciência de que a linha de ônibus da cidade A para B termina sete e meia da noite. Apenas, não estou a fim de partir tão cedo.  E que os nativos não mordem. O máximo que vai acontecer ao pedir carona é escutar "não" e demorar alguns minutos extras até conseguir.

Na pior das hipóteses, quando desembarco em um pais desconhecido, é pensar nas pessoas igual um aluno no primeiro dia de um curso novo e constatar que "só tem gente estranha" na sala de aula. Dentro de alguns dias, ele irá ao bar e fará amizades duradouras com tais "estranhos". Só que já sei que farei as amizades de antemão. Portanto, no máximo, sinto um leve estranhamento. Nem sempre foi assim. E não era assim porque eu não sabia, não havia viajado o suficiente. Não porque tenho um "espírito aventureiro". 

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Os "Príncipes e Mendigos", "Cosmopolitas e Trogloditas" (é o nome oficial de uma tribo na África do Norte, não é  minha intenção ser pejorativo) do prólogo da dissertação de mestrado e da reportagem nada mais são que os nativos que você conhece. Talvez essa seja a parte mais enriquecedora da viagem, quando se começa a fazer amizades com israelitas, sírios, russos, chineses, indianos, afegãos, búlgaros etc. É claro que senti medo quando um albanês desconhecido, na época das minhas primeiras estadias nos "hostels" da vida,  entrou no meu carro alugado numa ilha na Grécia oferecendo dirigir até meu albergue. Depois ele pegaria um ônibus para retornar a sua casa. Sem pedir nada em troca. É gentileza demais, por que ele desviaria do caminho? Mas eu estava perdido! E não havia escolha: era necessário confiar. Talvez ser "aventureiro" apenas signifique acreditar que existe mais bondade do que maldade no mundo. É como no desenho animado, quando Aladdin chega em seu tapete mágico e diz para Jasmine, "do you truste me?". Se você não fizer isso, nunca viajará; ou, no máximo, somente de pacotes turísticos. É como se o mundo te convidasse no palco da humanidade e o preço da entrada é precisar se deixar levar.  Se sou um "aventureiro" é tão somente porque decidi apostar na bondade das pessoas. Insisto, nem sempre foi assim. Eu já acreditei que afegãos são religiosos fanáticos totalitários ávidos por terrorismo.  Até o dia que conheci um. E os Príncipes são os grandes empresários ou advogados nascidos nas metrópoles cosmopolitas do planeta, que pagam o seu whisky para escutar as suas histórias. E os Mendigos são os camponeses dos vilarejos mais remotos, que oferecem o pouco que possuem para escutar como é seu país, através de mímicas por conta do parco inglês ou francês que falam. E sempre aquela sensação: eu não faço nada demais, por que esse advogado poderoso paga o meu whisky em troca de escutar meus relatos de viagem? Eu, simplesmente, sigo em frente. Quero conhecer um local e penso: qual a maneira mais barata e divertida de chegar até lá. 

E quando garotos de 20 anos suspiram por querer fazer igual a você e homens de 40 lamentam por não terem feito, eu digo: simplesmente vá.  Se houver algum dinheiro, vá! E que a maior aventura na face da Terra é descobrir o quanto é possível acreditar na bondade das pessoas!

Eduardo Cidade

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COMENTÁRIOS:

Marco Sintra

Marco Sintra comentou 3 anos atrás

Amei amigo. Parabéns pela história inspiradora!

Miriam Munir

Miriam Munir comentou 3 anos atrás

Eduardo adoreiii sua história!!!

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