WWOOF – Trabalho em fazendas (e o que isso me ensinou sobre viajar)


  Itália  1317 visualizações

Tirar férias é sempre excitante. Eu nunca conheci uma pessoa que tivesse comentado algo como, “ah, férias? Odeio!”.

Em uma manhã qualquer de Agosto de 2014, me peguei pesquisando alternativas para aproveitar minha tão esperada semana de férias.

A ideia de passar alguns dias fazendo porcaria nenhuma e repousar o corpo e a mente em uma esteira na praia ou em um lençol egípcio de uma cama de hotel soa como música aos ouvidos, mas naquele momento, eu estava em busca de algo mais prático e que trouxesse algum beneficio para alguém além de mim.

O trabalho em fazendas (farmwork, em Inglês) ainda é pouco conhecido no Brasil, e é um prato cheio para quem deseja viajar gastando uma merreca e acrescentar uma excelente experiência a seu livro de estórias.

Essa organização recruta pessoas que desejam ser voluntárias (chamadas de WWOOFers) em fazendas, pousadas ou sítios, em troca de acomodação, alimentação e bagagem cultural, além da aprendizagem relacionada a agricultura ou até mesmo gastronomia, que foi o meu caso. Assim sendo, escolhi passar a minha semana de férias na Itália e conhecer um pouco mais sobre a vida no interior, assim como ter contato com a língua na prática.

Eu já podia imaginar que tomar um trem de Milão até Cuneo me traria grandes surpresas quanto às paisagens, mas observar o céu mais azul que já vi e tapetes de grama amarela cobrindo os campos em contraste com as pequenas casas e vilas pelo caminho foi muita emoção junta para os meus olhos sedentos por “cliques” visuais.

E se a jornada até a última parada já não me deixou satisfeita, eu poderia finalmente me sentir completa ao chegar a uma linda casa em meio as montanhas de Chiusa di Pesio, com vista para plantações de frutas e um rebanho de ovelhas.

Havia mais dois WWOOFers naquela fazenda: Josefá, de Sicília (Italia) e Christopher Tricarick, de Nova York (EUA). Acabei mantendo conversas mais longas com o Chris, já que os Italianos falavam algumas poucas palavras em Inglês e o meu Italiano não estava avançado o suficiente para manter uma conversa elaborada sobre o céu e a terra.

O Chris deu seu pontapé inicial no mundo do WWOOF em 2013, devido à vontade de conhecer a vida no interior de um país Europeu, além de conhecer mais sobre agricultura e fugir da insanidade de uma cidade grande como Nova York. Passou por diversas fazendas na bela região de Toscana, Emilia, Veneto, Aosta e finalmente em Piedemonte, onde nos encontramos. 

As tarefas que ele desenvolveu durante essa jornada foram diversas; produzir queijos e vinhos, alimentar os animais, colher uvas, remover ervas daninhas, aparar arvores, cuidar dos animais criados em fazenda (ovelhas, cavalos, coelhos, entre outros) e coordenar serviços de cozinha para preparação de banquetes e muitos outros afazeres típicos de uma vida no campo.

Nas fazendas, a jornada de trabalho é de meio período, incluindo alguns dias bastante calmos, o que permitiu que ele descansasse e apreciasse o cenário ao redor, cercado por montanhas parcialmente cobertas pela neve em contraste com o verde das arvores.

“Não faço a mínima ideia”, foi o que ouvi quando o questionei sobre o dia que este ciclo terminaria e ele voltaria para casa.  A resposta dele me fez pensar que muitas pessoas não enxergam esse trabalho como um projeto temporário (com começo, meio e fim), e sim, como um estilo de vida.

No percurso daquela “entrevista” informal, ele também mencionou os melhores momentos que vivenciou, como escrever seus artigos em um ambiente inspirador, aprender sobre diferentes estágios da agricultura e enriquecer seu conhecimento na língua Italiana. Há também a parte que não é assim tão confortável, como se adaptar aos horários e planejamentos de cada fazenda, seguir os mesmos hábitos alimentares dos moradores, e claro, as tarefas, que são diversas e muitas vezes exigem um grande esforço físico e destreza. Mas em geral, nada que seja necessário conhecimento ou experiência prévia.

Quando pedi para ele me contar o melhor momento que ele teve como um WWOOFer foi dificil ouvir uma só estória. As melhores, segundo ele, foram as atividades relacionadas ao cuidado de animais (principalmente ao ver a reação destes inocentes seres quando sabem que vão receber seu alimento e um pouco de atenção humana), a sensação de morar em uma região montanhosa e poder se aventurar em escaladas pelas florestas, ver a produção de um produto caseiro como o queijo do inicio ao fim, montar um estabulo e fazer pães e doces.

Com relação ao meu fim; foi nessa semana que...

- Aprendi que a vida na área rural traz uma paz inacreditável.

- Vi um pé de metilos e uma árvore de maçãs pela primeira vez na vida.

- Colheita debaixo de sol com algumas abelhas voando em volta não me pareceu uma atividade muito atraente, mas valeu o esforco para comer as frutas depois.

- Descobri que existem alimentos frescos, longe de qualquer produto enlatado ou congelado. E sim, eles têm um gosto sublime.

- Caminhar de uma casa para a outra dentro de uma fazenda pode ser um pouco assustador, já que não há postes de luz.

- Tomei um bom pontapé no traseiro referente à língua Italiana. A comunicação entre todos devia ser constante e sim, precisa estudar a língua local do destino escolhido se quiser manter conversas ou pedir algo além de um copo de água.

- Tive o prazer de comer uma das melhores pizzas da minha vida, inteiramente feita pelas mãos de um chefe de cozinha Italiano, que por sinal, era o dono da fazenda.

- Tive que aprender a cozinhar feijoada na marra. Os empregadores recebem voluntários do mundo todo e muitas vezes eles acham bacana conhecer um prato típico do paísdos voluntários.

- Aprendi que o tamanho e a profundidade da pia da cozinha são proporcionais à quantidade de louça que se acumula dentro dela após as refeições. Dica: se estiver pensando em criar uma cozinha industrial, tenha em mente que as medidas devem ser compatíveis com o tamanho do Monte Everest.

- Meu amor pelos Italianos só cresceu, assim como minha percepção sobre as características deles. Os Italianos que conheci são naturalmente emotivos e calorosos. O ‘capo’ (chefe em Italiano) era calmo e sereno na maior parte do tempo, até o dia que explodiu quando ficou nervoso, principalmente na cozinha e com as panelas; a prova disso é que uma delas não sobreviveu para contar a estória.

-Meu raciocínio dedutivo ficou mais apurado, já que os empregadores não passam um treinamento ou uma lista diária de afazeres. O lance é ver, identificar e partir para a ação.

- Passei a acreditar que almoçar sob a luz do sol pode causar efeitos terapêuticos na mente.

- Tenho medo de lagartos, mas no final, comecei a acha-los simpáticos; não tive outra opção.

- Um rebanho de ovelhas imóveis me olhando fixamente todas as manhãs fez eu me sentir o centro das atenções; isso foi pior do que os seminários da época do colégio.

- Aprendi que usar esmalte em uma viagem dessas não tem cabimento.  Ir a um salão de beleza para ser um WWOOFer mais tarde não tem cabimento.

- Visitei uma granja e notei que isso pode causar alguns danos à saúde emocional, mesmo sem ver as galinhas sendo abatidas antes de virar frango; o som que elas fazem dentro do compartimento é suficiente para partir o coração.

- Descobri que admirar pequenos vilarejos a noite é como uma cena de filme antigo. Minha única preocupação era me certificar de que a pessoa que estava guiando conhecia a área muito bem, do contrário, será difícil encontrar o caminho de volta.

Conheci pessoas maravilhosas em todos os estágios da viagem, convivi com os locais, me apaixonei pela zona rural e essa rapida, porem notavel, semana me deu motivos suficientes para me sentir uma viajante (exótica) e não uma turista (comum).

  

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COMENTÁRIOS:

Fernanda Leal

Fernanda Leal comentou 1 ano atrás

Giuliana, que massa! Queria saber um pouco mais sobre o WWOOF. Como funciona?

Alice Marotta

Alice Marotta comentou 11 meses atrás

Amo roça, natureza, paz.... Tenho cidadania italiana e estou pesquisando uma cidade tranquila (com clima mais quente possível) para me mudar de vez. Vc tem algum conselho? Vc recebia algum dinheiro para se manter? Ou pode nos falar como conseguir viver disso? Grazie!

Giuliana Bonvini

Giuliana Bonvini comentou 10 meses atrás

Fernanda Leal e Alice Marotta - o processo e’ bem facil. Voce so’ precisa visitar o website deles, se cadastrar, pagar uma pequena taxa e eles vao te mandr a lista de fazendas cadastradas. Dai voce contata quantas fazendas desejar. A negociacao e’ feita entre voce e as fazendas, entao voce pode escolher qual sente mais confianca. Eu achei o interior da Italia uma excelente opcao para esse tipo de programa. O trabalho e’ voluntario e voce nao recebe nenhum pagamento por isso. No entanto, a acomodacao e a comida estao incluidos. Sempre clarifique isso com a fazenda na fase de negociacao. Eu apenas passei uma semana nesse programa quando estava de ferias, entao nao sei como funciona a longo prazo. O rapaz Estadounidense que estava na mesma fazenda que eu, ja fazia esse trabalho ha mais de 1 ano e vivia bem com isso. Um pouco de dinheiro voce sempre deve levar ja que em algum momento vc vai querer sair dali e visitar outros lugares proximos. Espero ter ajudado. Giuliana

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