Vale a pena ir para Ibiza?


 Ibiza    1034 visualizações

Bruno Molinero adicionou foto de  Foto 1Festa na balada Amnesia (Foto: Divulgação)

Era começo de agosto, auge do verão Europeu, e as meninas de biquíni estavam por toda a parte. E eu de volta à Espanha, com uma barba apostólica de quem tinha acabado de passar 35 longos dias na Índia: sem boa comida, sem boa cerveja, sem nada para fazer à noite, sem bons bares e sem boas ou más festas. Àquela altura do campeonato, qualquer boteco de arrocha com ovo colorido e cachaça de caranguejo já me parecia um ótimo programa para a madrugada. Passar três dias em Ibiza, então, era a recompensa após o esforço, o pote de ouro no fim do arco-íris, a macarronada depois do jejum.

Embarcamos num voo barato da Ryanair só com uma mochila, um par de bermudas, um perfume para usar na balada e nenhum lugar para ficar. Se tudo desse errado, dormiríamos na praia. Arranjaríamos um guarda-sol qualquer e desfrutaríamos o sono dos que venceram a noite mais insana da Europa, se possível com uma loira holandesa dividindo a cadeira de praia e a maior ressaca de nossas vidas. Assim que pousamos, liguei o celular e recebi a mensagem de uma amiga que já estava em Ibiza:

“Bruno, o apartamento é bem grande. Você e seus amigos podem dormir na sala”.

Perfeito. Tudo estava dando certo. Conseguimos um sofá de frente para o mar –a holandesa era só uma questão de tempo. Se vale a pena ir para Ibiza? Claro que sim.

Até que chegou a hora da balada. Escolher onde você vai curtir a noite começa com uma dezena de modelos que só falam inglês (embora ainda estejamos oficialmente na Espanha) espalhadas pelas ruas, praias e pontos mais badalados da ilha. Todas seguram uma tabela com as opções e preços das festas. A partir daí, é como visitar um açougue. As carnes de segunda são as mais baratas: casas noturnas caídas ou pouco conceituadas que não cobram nada ou, no máximo, 10 euros com direito a um drinque pela entrada. O filé mignon do dia pode chegar a 100 euros. A pista de dança em que é possível trocar ideia com o Neymar e tirar uma selfie com a Paris Hilton são exclusivas e não costumam constar na lista. Escolhemos, digamos, a alcatra: a balada Amnesia, que cobrava 50 euros pelo tíquete. Seco, sem direito a um gole d’água. Mas com um ônibus que te levava ao lugar e depois te trazia de volta.

Entramos cheios de esperança. Estávamos na considerada melhor noite do mundo. Mas nossa ilusão acabou na primeira vez em que cruzamos a pista em direção ao bar. A festa estava tão cheia que era impossível passar pelo ambiente sem esfregar a cara no mamilo suado e depilado de pelo menos 17 sósias sem camisa do Vin Diesel. Não sei se era problema no ar-condicionado, o efeito de milhares de pessoas confinadas no mesmo espaço, a temperatura natural do verão ou tudo isso junto, mas o calor beirava o insuportável. A estufa fazia com que quase todos os bombadinhos da balada tivessem a brilhante ideia de tirar suas regatas e decidissem desfilar o peito para mostrar a depilação que fizeram no início das férias.

Para piorar, as baladas de Ibiza, definitivamente, não são como as do Brasil. Esqueça qualquer tipo de interação social e aquela famosa cena de uma parede recheada por casais recém-formados se afogando em beijos e apalpações. Lá, ninguém conversa, ninguém se pega, todos ficam virados para o DJ como se ele fosse o Mick Jagger, balançam a cabeça como se estivessem em uma seita e fecham os olhos em êxtase. As poucas meninas que saíram do transe quando fomos falar com elas (muitas só de biquíni por causa do calor) não pareciam muito dispostas a sair de sua bolha particular. Mas pelo menos responderam alguma coisa. A maioria não se deu ao trabalho nem de fazer isso.

Sinceramente, não vejo por que ir a uma festa em que, na melhor das hipóteses, você vai pagar R$ 150 para se sentir encochado como no metrô Sé às seis da tarde. Com um agravante: sem pegar ninguém e esfregando-se no suor de pelo menos 30 países diferentes. A solução? Beber. Mas, com um cardápio em que a água de 300 ml custa oito euros (R$ 24), fica um pouco difícil.

Decepcionados, decidimos aproveitar a noite seguinte em uma das casas consideradas “carne de segunda”. A sensação de entrar em uma delas é a mesma de pisar em um dos pés-sujos do centro de São Paulo, cheios de pinguços e gente estranha. Só que com o charme e requinte europeus. Do barman ao faxineiro, todos nos olhavam como se estivessem preparados para dar mais um golpe nos turistas endinheirados. Saímos logo de lá e fomos dar uma volta pela praia antes de dormir. Se vale a pena ir para Ibiza? Claro que não.

Bruno Molinero adicionou foto de  Foto 2

Praia de Ibiza, com o mar cristalino (Foto: Thomas Canton)

Acordamos cedo pensando que era o nosso último dia na ilha. Pegaríamos o voo à noite para Barcelona e, em seguida, outro para o Brasil. Para relaxar e nos despedir, entramos em um barco turístico e navegamos por meia hora em direção a uma praia próxima.

O lugar era espetacular: água azul e cristalina, grupos de amigos tomando cerveja, iates imensos ancorados. Sentamos num bar montado em um mezanino com uma vista privilegiada do Mediterrâneo e pedimos uma jarra de um litro de sangria. Depois, mais alguns chopps servidos em canecas de 500 ml. Um pouco por causa do álcool, mas muito pela felicidade de estar em uma praia paradisíaca acompanhados dos melhores amigos, nadar em uma água translúcida e ver pôr do sol em uma das paisagens mais bonitas de nossas vidas, fomos tomados por uma euforia e pelo distanciamento da experiência que tivemos nas baladas das noites passadas. Em algum momento, achamos que era uma ótima ideia ficar naquele lugar para sempre. Relaxados. Com o pé na areia. Sem preocupações.  

Acabamos perdendo o barco da volta e, mais tarde, o nosso voo. Mas essa já é outra história. Se vale a pena ir para Ibiza? Vale. Mas eu não volto tão cedo. 

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COMENTÁRIOS:

Elaine Moraes

Elaine Moraes comentou 1 ano atrás

Ri litros aqui!!!Parabens Bruno,vc descreveu de um jeito tao legal,que me senti em Ibiza, partilhando esse momento com vcs!!!

Cassandra Reis

Cassandra Reis comentou 1 ano atrás

Curti o depoimento, sempre é bom ouvir as experiencias.

Marcela De Souza

Marcela De Souza comentou 8 meses atrás

e as praias badaladas durante o dia são boas???? Qual você indica? Já desencanei de festas noturnas hahaha


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