Presos em Helsinki


 Filândia, Helsinki  

Para qualquer latino-americano acostumado com calor, bebedeira, poluição e penitenciárias mais lotadas do que escolas, a Finlândia é um país numa galáxia muito, muito distante. Na terra oficial do Papai Noel, 18 graus é verão e sai mais barato contrabandear vodca da Estônia do que beber uma cerveja ralé no bar da esquina. Sóbrios ou não, os finlandeses não têm do que reclamar. O país é um dos líderes em desenvolvimento sustentável, educação pública de alto nível, saúde e segurança social.

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Área de Helsinki (Foto: Thomas Canton)

 Helsinki, capital da Finlândia, 9 horas da manhã. Graças aos altos impostos das bebidas de sábado, acordamos bem cedo e sem ressaca no domingo. Como isso não acontecia há um bom tempo, demoramos um pouco para decidir o que fazer enquanto tomávamos nosso café com pão sírio. Dentre recomendações de passeio viking, lojas de design e visita à casa do bom velhinho, nada agradava.  Até que a prestativa garçonete do bar nos sugere a ilha Suomenlinna, uma das mais próximas da cidade. Era um dia bonito, por que não? Além do mais, num país com mais de 170 mil ilhas, seria desfeita não conhecer pelo menos uma.

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Fortaleza de Suomenlinna (Foto: Michal Pise)

A fortaleza construída em volta da ilha já impressionava de longe. Para chegar lá, pagamos uma balsa a 3,60 euros ida e volta (R$10), mas a entrada não é cobrada. Descendo no cais, seguimos uma rota aleatória para conhecer o máximo da ilha sem perder o horário da última balsa. A paisagem é fantástica, e a ilha parecia crescer a cada passo que dávamos, revelando as residências da comunidade local e seus hábitos: jogavam bola, brincavam de cadeira de balanço e até acenavam para alguns turistas perdidos. Mais pra frente, cruzamos um rio e entramos num submarino usado na Segunda Guerra Mundial. Este, sim, cobrava entrada de 5 euros (R$ 15). Até aí, um passeio interessante, mas nada genial. Um pequeno detalhe mudou tudo.

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“Colônia de Trabalho” em Suomenlinna (Foto: Tim Bird)

Já era hora de voltarmos, mas seguimos por um caminho diferente. Perto do cais, umas casas no alto da colina começavam a se destacar. Eram diferentes das outras e cercadas por um pequeno muro de madeira. Decidimos ir até lá ver o que era. Chegando perto, fui entrando devagar e já pude ver um pouco do que tinha dentro. Uma TV parecia dividir um espaço comum com cozinhas, banheiros, área para churrasco e até saunas. Se não fosse pela placa que dizia “Colônia de Trabalho”, aquilo pra mim era um albergue, e dos bons. Fiquei observando por um tempo até que uma figura surge de trás de uma árvore.  Um homem alto, agasalhado com casaco de pele, charuto na boca e uma pá na mão, vem rapidamente em minha direção. Jogou o charuto no chão, abriu um sorriso e perguntou o que eu fazia ali. Vendo que era muita informação para processar, ele se adiantou:

 - Você não pode ficar aqui. Isso é uma prisão.

 Não sabia se aquilo era uma piada, uma ameaça ou uma frase filosófica. Mas ele estava falando sério. Passados os segundos iniciais de choque, o simpático finlandês explicou tudo. Aquela área é conhecida como a prisão aberta de Helsinki, construída em 1973, com capacidade para até 95 detentos do sexo masculino. No momento, tinham apenas 20 presos de toda a região. A ideia é prepará-los para se reajustarem na sociedade, o que o encarceramento num sistema fechado não era capaz de fazer. Alguns deles estudam na ilha, enquanto outros trabalham na renovação da fortaleza ou na cidade, o que é garantia de emprego remunerado assim que saem da prisão. Para ele, separar educação de segurança pública é uma burrice. As duas só funcionam juntas. Ele olhou para o relógio, colocou a pá na minha frente e brincou:

 - Ainda temos vaga. É melhor você ir ou vai ter que ficar um tempinho até terminar essa cerca.

 Voltamos para Helsinki e bebemos mais que todas as outras noites. Ninguém reclamou de imposto dessa vez.

Local: Ilha Suomenlinna, Helsinki, Finlândia:

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