Praias de Cuba


 Cuba, Varadero, Baracoa  

 

Cuba não é um país. São dois.

 

De um lado está a Cuba dos cubanos, que recebem salário médio de 470 pesos por mês (menos de R$ 50), vivem sob o regime dos irmãos Castro e não podem sair do país. De outro, a Cuba dos turistas, que não se acanham em pagar 20% do salário de um cubano por um mojito, viajar pela ilha como em um filme do Adam Sandler e usar uma moeda exclusiva para estrangeiros, o peso cubano convertível, com cotação equiparada ao dólar.

 

A diferença entre os dois mundos desemboca nas praias da ilha. Enquanto turistas se divertem em areias open bar de europeias de biquíni, cubanos se conformam em mergulhar com menos requinte.

 

Visitamos os dois lados desse ringue e contamos a experiência a seguir.

 

PRAIA DOS TURISTAS

Bruno Molinero adicionou foto de  Foto 1
Varadero, a praia mais procurada pelos turistas em Cuba

Vínhamos direto de Trinidad, uma cidade no sul da ilha, com a pulseira amarela da balada ainda colada no braço. Varadero, a famosa estância balneária pertencente ao município de Cárdenas, tinha que compensar os 250 km de estrada e a noite mal dormida na van.

 

Ao deixarmos a área urbana para pegar a estrada que segue para o lugar, tudo o que conhecíamos por Cuba tinha ficado para trás. Era como se tivéssemos cruzado uma barreira econômica e temporal. Os carros de 1950, a arquitetura colonial e as riquezas compartilhadas não existiam naquele pequeno pedaço de terra. Lá, só carros importados, resorts gigantescos e mais centenas de propriedades privadas. No lugar de cubanos, as ruas de Varadero pareciam ter sido ocupadas por todos os canadenses de férias.

 

Chegando na praia, vimos um sujeito com uma bandeja cheia de copos de mojito retirando uma família de um dos quiosques. O rapaz dizia que aqui ali era uma área privada e que eles deveriam ir para outra praia. Em seguida, veio nos receber com um sorriso, um copo de mojito para cada e ainda nos levou até o quiosque vazio, arranjando cadeiras e mesas para que ficássemos à vontade. Ninguém entendeu nada, mas simpatia assim é bem difícil de recusar.

 

Sentamos e bebemos o delicioso mojito de frente para a água cristalina do mar caribenho. À nossa volta, um casal em lua-de-mel, três garotas suecas e um grupo de dez canadenses. Carregavam Rolex, óculos Prada, jóias e outros itens brilhantes que juntos comprariam meu rim. Nada parecia explicar o que nos garantia o mesmo privilégio.

 

Nada, a não ser a pulseira amarela que todos usávamos, simples de identificar e separar os grupos. Quem tinha a pulseira era hóspede do resort e desfrutava da praia com a opção “all-inclusive” (toda a comida e bebida que quisessem consumir). Quem não tinha, não podia ficar ali. A nossa fita da balada era parecida com a pulseira de quem estava hospedado. Demos sorte.

 

A viagem foi mais que compensada. Passamos a tarde inteira bebendo mojito, piña colada e daiquiri de graça, relaxando numa paisagem sensacional. Para quem quer visitar a Cuba calma e paradisíaca, não tem melhor destino. Mas para conhecer a cultura e história do país, ali não é o lugar.

 

PRAIA DOS CUBANOS

 

Bruno Molinero adicionou foto de  Foto 2
Cubanos em Baracoa (Foto: Bruno Molinero)

Descemos felizes da vida do Oldsmobile azul claro, provavelmente dos anos 1940, que nos havia buscado. Os quase 30ºC daquele junho cubano faziam o estofado de couro rasgado do táxi, cujas janelas não abriam, soltar um cheiro de mofo pré-revolucionário.

 

Dali a poucos minutos, todos enfiaríamos o pé nas areias de Baracoa, praia a 30 km de Havana, bastante popular entre cubanos que querem ganhar um bronzeado de fim de semana. Nessa hora, minha experiência paulistana de viagens a Santos já alertava: o que veríamos a seguir estaria longe de ser um cartão postal paradisíaco; não teria Caribe que salvaria Baracoa da proximidade da capital.

 

Dito e feito. Espalhados pela faixa de litoral, famílias comiam uma mistura típica de arroz com feijão em potes de alumínio, grupo de amigos tocavam atabaque, enquanto um reggaeton no último volume embalava nosso vizinho, só de cueca e com charuto barato na mão, deitado num lençol branco puído com a mulher. Parecia que estávamos na Praia Grande do Caribe, no Piscinão do Che Guevara. Mas, por sorte, com um mar limpo, azul cristalino recheado de pequenos peixes coloridos ao alcance da mão.

 

E quer saber? Que bom que estávamos lá.

 

Não sou hipócrita o suficiente para dizer que uma praia barulhenta, cheia de crianças com fralda suja correndo para lá e para cá, seja legal. Nem para supor que, caso eu fosse holandês, adoraria ir à Praia Grande para conhecer o povo brasileiro mais de perto.

 

A questão é que não vejo por que visitar Cuba se a ideia é ficar em uma praia que parece um shopping, divertir-se com gente vestindo camiseta da Hollister e boné Quicksilver, relaxar em grandes empreendimentos open bar, escutar Lady Gaga à beira-mar e comer lagosta com queijo brie. É legal, confesso, mas há várias opções no mundo mais indicadas: Miami, Cancún, Saint-Tropez, Ibiza, Punta Cana, Havaí e outros mil resorts no litoral do Brasil. Esperar isso de Cuba é como querer ir ao Maracanã para ver um jogo de hóquei no gelo.

 

Fechada para o mundo desde a Revolução de 1959, a ilha é um isolamento geográfico que cria pessoas que cresceram sem usar camisetas do Mickey, ver Cavaleiros do Zodíaco ou tomar Coca Cola. Falar com elas ou só observá-las pode ser uma grande experiência. E isso, meu amigo, você não encontra à beira da piscina na Costa do Sauípe.

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COMENTÁRIOS:

Ju Gimenez

Ju Gimenez comentou 1 ano atrás

Poxa que belo ponto de vista!

Renata Monteiro

Renata Monteiro comentou 1 ano atrás

Vou passar 3 dias em Cayo Santa Maria em dezembro e juro que esse texto me fez repensar! Adorei! Muito bom.

Patricia Guimaraes

Patricia Guimaraes comentou 5 meses atrás

Adorei seu texto, Bruno! Vou a Cuba dos cubanos. Muito obrigada

Patricia Guimaraes

Patricia Guimaraes comentou 5 meses atrás

Adorei seu texto, Bruno! Vou a Cuba dos cubanos. Muito obrigada

Eliane Souza

Eliane Souza comentou 1 mês atrás

Adorei o post! Pretendo visitar Cuba em Março/2017, estou pesquisando bastante.


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