Perdendo-se e sendo achada pela Pérsia


 Shiraz, Yazd, Isfahan, Teerã, Irã  

Antes de pisar no Irã em meados de outubro do ano passado, pesquisei sobre o destino por meses - pousadas, roteiros, preços e tudo mais o que é necessário ao viajante que não quer ficar perdido e desolado. No meu caso, esse preparativo teve uma função maior de acalmar meus conhecidos, já que fui sozinha para um lugar onde, em geral, a população não sabe o básico de inglês e o contato com a globalização é menor do que estamos acostumados (aviso aos pais desesperados: Skype não funciona lá. Nem Travel Money pra salvar seu filho do mau planejamento financeiro dele). O que nem eu estava esperando é que todo esse preparativo acabaria sendo jogado pela janela.

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 1

O plano original era fazer em 3 semanas as cidadez Shiraz – Kerman – Yazd – Isfahan – Kashan – Qom – Teerã – Tabriz. Todas eles lugares históricos e cheios de turistas (na maioria velhinhos alemães, porque alemães estão em todos os cantos).

Ao chegar em Shiraz, fui recebida pelo meu Couchsurfer que me hospedou na casa de sua maravilhosa família por 4 dias. E foi ele que me convenceu a abandonar meu planejamento, trocando Kerman por uma cidadezinha de 20 mil habitantes e um vilarejo. E para isso, peguei um ônibus para um destino que não sabia identificar, e aguardar pessoas com quem não conseguia me comunicar e nem perguntar o nome. Na verdade, eu nem sabia se eu seria recepcionada por alguém na rodoviária.

Só sei que depois de um tempo ao chegar em Abarkouh (famosa por ter uma das árvores mais antigas do mundo, além de construções milenares) dois sujeitos primos do meu CS apareceram e ficaram olhando pra mim e olhando uma foto do celular para me reconhecer. Feito isso, me ajudaram com a mala e passaram a me mostrar a cidade. Entre mímicas e um minúsculo dicionário de inglês, troquei histórias com a família que me hospedou lá por 3 dias e me levou pra um pique nique noturno no deserto, me explicando desde as propriedades naturais do melão (iranianos se importam muito com a dieta!) até como é conviver com a viuvez após a sanguinária guerra contra o Iraque da década de 80.

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 2

Repeti a dose em Yazd. Um outro Couchsurfer que eu contactei em Shiraz me forneceu um contato de um amigo dele que estudava arquitetura na cidade, e após chegar à outra rodoviária e ser extorquida por um taxista, achei a universidade de Hashem e Ali. Ambos não só arranjaram uma kitnet para eu alugar enquanto fiquei lá, como me mostraram a cidade explicando a sua incrível arquitetura que se estende por até 5000 anos no passado. Yazd é um sonho com suas torres antigas de “ar condicionado” marcando o horizonte da cidade situada no meio do deserto e corredores estreitos que preservam o estilo milenar do local. Compramos doces em uma das docerias mais famosas do Irã e eu fiquei oferecendo a soldados e guardas (pode até parecer estupidez fazer isso, mas fiz amigos assim).

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 3

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 4

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 5

Dois amigos de Ali e Hashem me forneceram os próximos destinos. Um deles, Behrooz, me apresentou Fatemeh, uma fotografa que mora em Isfahan, e ela concordou em me hospedar no apartamento dela por 3 dias. Nessa altura do campeonato eu já tinha aprendido na raça como é possível se comunicar com qualquer pessoa se todos têm interesse e força de vontade para tal. Fatemeh me achou na rodoviária e de lá fomos para uma casa de chá – inaugurando assim a impressão requintada e artística que Isfahan tinha pra me oferecer. Há séculos é dito que “Isfahan é metade do mundo”, e com razão – além das inúmeras belezas, a praça principal, Naqsh e-Jahan, é uma das maiores do planeta, circundada por um gigantesco bazar e a famosa mesquita Sheik Loftallah. Behrooz é arquiteto como Hashem e Ali, e ele me proporcionou um tour explicando as minúcias que constroem as mansões dos antigos Xás de Isfahan. Após esse tour, aprendi que qualquer minúsculo pedaço de azulejo nas mesquitas tem uma função específica no padrão. Cada tijolo colocado na transversal, cada forma geométrica. Ele também me levou aos bairros de afegãos na periferia e me explicou como se deu a triste imigração desse povo ao Irã, durante a guerra do Afeganistão com a Rússia.

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 6

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 7

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 8

Antes de partir de Isfahan, Behrooz contactou uma amiga dele (Zahra) em Teerã. Assim acabei descartando Qom e Kashan dos planos e parti direto para a cidade que me fez lembrar bastante São Paulo. A capital tem quase 10 milhões de habitantes, um trânsito caótico e um metrô lotado em horário de pico, mas há um ar cultural interessante que não é similar a minha cidade natal. Nesta época, as comemorações da Ashoura já estavam em toda parte – Zahra reclamava das enxaquecas proporcionadas pelos “boom boom boys”. Ashoura é a maior festa religiosa dos muçulmanos xiitas, dura 10 dias e relembra o martírio do Imã Hussein. Irã, o maior país xiita do mundo, é tomado por bandeiras pretas, imagens do Imã Hussein adornam as janelas dos prédios e contos sobre sua história de vida tocam pelos rádios dos taxistas. Há também gente fazendo caridade distribuindo comida pelas ruas, além de muita gente tocando tambor, inclusive perto do apartamento da Zahra. Foi a primeira vez que eu vi trânsito causado por um grupo fechando a rua tocando tambores.

 Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 9

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 10

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 11

O segundo amigo de Ali e Hashem, Fóad, é um curdo que entrou em contato com um conhecido dele em Sanandaj. Então, ao invés de ir para Tabriz, acabei indo para o Curdistão iraniano. Novamente cheguei em outra rodoviária esperando por alguém que não fazia ideia quem fosse, sabendo só o seu nome – Shahriar. Enquanto eu estava tirando a mochila do bagageiro, Shahriar me recepcionou com 3 blusas pra me ajudar a enfrentar um frio de montanha que eu não conseguia lidar.

Iranianos em geral são notoriamente hospitaleiros e calorosos, mas há algo entre os curdos que cria o consenso, entre os próprios iranianos, de serem um povo amável. Sendo “povo das montanhas”, era mais que natural que o Shahriar me levasse num dia de trekking em uma das montanhas que adorna o horizonte de Sanandaj (ou, na linguagem local, Senna). Mais sensacional que a vista, era ver senhorinhas de uns 80 anos subindo a montanha numa boa, segurando só uma garrafinha de água, enquanto eu sofria.

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 12

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 13 

Bem no dia de subirmos a montanha foi o dia da Ashoura – e por uma idiotice minha eu totalmente esqueci do fato que curdos são sunitas e o feriado que para o país é, na realidade, muito pequeno em Sanandaj. Porém, isso não impediu que eu conseguisse ouvir o som dos tambores no alto da montanha.

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 14

Anna Paula Ferrari Matos adicionou foto de Shiraz,Yazd,Isfahan,Teerã,Irã Foto 15

De Sanandaj, peguei meu último ônibus, que iniciaria uma viagem de mais de 30 horas para a Armênia. Dentre a chuva de perguntas estranhas feitas a mim pelos funcionários do aeroporto antes de embarcar no avião para o Irã e as piadinhas envolvendo futebol feita pelos soldados iranianos na fronteira com a Armênia, há uma história muito, muito longa. Minha estadia no Irã foi muito mais do que está aqui. O que eu espero ao relatar esse texto corrido à 1 da manhã é mais que encorajar as pessoas a viajarem sozinhas. É se entregar por inteiro nessa missão, sugerindo que é possível mudar todos os planos de última hora, conhecendo e confiando nas pessoas. E como isso pode ser surpreendente e te levar para lugares que você nunca imaginaria.

- - - -

Se você curtiu esse texto, ficaria extremamente feliz se pudesse dar um nele aí embaixo ou compartilhar com seus amigos!

COMENTÁRIOS:

Juh Oliveira

Juh Oliveira comentou 6 meses atrás

Que história incrível e que lugar maravilhoso! Parabéns pela coragem tb!

Aldo Cruz

Aldo Cruz comentou 6 meses atrás

Que delícia de relato Anna Paula. Sempre viajei sozinho, e vejo muitas vantagens nisso. Porém sempre viagens ocidentais. Seu relato fez um bichinho novo se movimentar em mim. Abraço e boas viagens.


Fique por dentro das novidades e melhores dicas:




Instagram


Viajantes também leram:

SUA VIAGEM COMEÇA AQUI

Dubbi é um novo espaço para pessoas incríveis que amam viajar possam interagir, se ajudar e compartilhar suas histórias e dicas de viagem.

Junte-se a nossa incrível comunidade de +35.000 de viajantes experts do Dubbi.