Onde deus não manda


 Bolívia, Potosí    1592 visualizações

 

Bruno Molinero adicionou foto de  Foto 1  

Juan pediu um cigarro emprestado, acendeu o Marlboro com um fósforo meio úmido, deu um longo trago e colocou o tabaco ainda queimando na boca do diabo.  

-- Aqui, deus não manda. Embaixo da terra é o reino do tío (diabo), temos que pedir permissão a ele para entrar -- disse Juan, nosso guia pelas minas subterrâneas de Potosí, na Bolívia, enquanto mascava um emaranhado de folhas de coca que tinha o tamanho de uma bola de golfe.  

 

Estávamos já dentro da mina, a poucos metros da entrada. Nosso grupo, formado por seis turistas vestidos com macacão bege, galochas e capacete com lanterna acoplada, formava um semicírculo em torno da estátua do diabo que abençoaria nossa visita. Vermelho, magro, de argila, com longos chifres e pênis desproporcionalmente ereto. A luz, que mal iluminava a penumbra da caverna, saía apenas de nossos capacetes e da ponta do cigarro em brasa. O cheiro de enxofre fazia o ar ficar espesso. Os únicos sons caiam com as gotas do teto.  

 

As minas de Potosí são a única coisa interessante para se visitar na pobre e empoeirada cidade boliviana. Importante centro de mineração do período colonial, o lugar foi um dos maiores fornecedores de prata para a Espanha, que utilizava o metal para impulsionar sua economia entre os séculos 16 e 17. Nessa época, indígenas eram forçados a trabalhar na escavação, onde passavam até seis meses sem ver a luz do sol. Hoje, são os descendentes deles que saem do buraco das minas com as mochilas recheadas de zinco, estanho e chumbo, já que prata está difícil de encontrar.  

 

-- Os mineiros passam oito, dez, doze até vinte horas embaixo da terra. Durante esse tempo, eles não comem para não precisar ir ao banheiro aqui embaixo. E só bebem álcool e mascam folhas de coca, que corta a fome-- explicou Juan, enquanto jogava algumas folhas em torno da estátua do diabo e a banhava com um pouco de álcool.  

  Bruno Molinero adicionou foto de  Foto 2

 

A mina parece um formigueiro. A entrada é sustentada por concreto e antigas pedras molhadas com sangue de lhama. Tubos conduzem o ar da parte externa para o interior, mas respirar é uma tarefa tão difícil quanto enxergar na escuridão. Ao entrar pela galeria principal, as botas afundam em água e lama, que só aumentam à medida que se caminha. Nas laterais, centenas de galerias se cruzam, nas quais só se pode entrar escalando ou arrastando-se. As temperaturas podem variar de um calor insuportável para um frio de bater o queixo.

 

As formigas desse submundo são os mineiros, que se curvam à mineração por falta de outra atividade econômica e veem nos turistas, que pagam cerca de 30 bolivianos (R$ 10) pelo tour, uma oportunidade. Antes de visitar o lugar, o microônibus faz uma parada em um mercado a céu aberto para que os visitantes estrangeiros comprem presentes aos trabalhadores: folhas de coca, tabaco, álcool puro para beber, refrigerante para misturar com a bebida e dinamite  

-- Às vezes algumas pessoas morrem, principalmente por causa dos deslizamentos. Mas não não sabemos fazer outra coisa -- contou-nos um dos mineiros, enquanto sentávamos em roda para ouvi-lo e dividíamos uma garrafa de 200 ml de álcool. Antes de cada gole, é preciso que a pessoa jogue algumas gotas no chão como oferenda para a pachamama, a deusa terra.  

 

É que a mina para o mineiro representa quase um caminho para o sobrenatural. Ele ganha força e coragem do tío e da pachamama para superar o ambiente e o trabalho insalubres, em um lugar em que deus não tem poder. O respeito pelas entidades e pelos ritos são tão grandes que transformam o próprio trabalhador em também um ser da mitologia. O mineiro só volta a ser homem e mortal na superfície.  

 

Ficamos duas horas soterrados. Confesso que, mesmo sem religião, senti falta de estar em um lugar onde deus ainda manda. Ou talvez fosse só falta de sol.

 

por Bruno Molinero

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