As macabras estátuas de Oslo


 Oslo, Noruega    2684 visualizações

Muitas vezes passamos despercebidos por monumentos que não parecem ter qualquer significado. Ou pelo menos não nos impressionam tanto a ponto de despertar um interesse específico.

Em Oslo, capital da Noruega, as estátuas do parque Frogner são tão sinistras que exigem maior explicação sobre a obra e o período em que foram construídas.

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O parque Frogner é o maior parque de estátuas do mundo feitas por um único artista, o escultor Gustav Vigeland. São 212 estátuas que representam mais de 600 figuras humanas em tamanho real.

Entre as mais perturbadoras, crianças amarrando a boca da mãe com uma corda, um homem fazendo malabarismo com os filhos, um bebê chorando em desespero e um esqueleto em decomposição. Todos pelados.

O tema do parque é a condicão humana, retratada pelas relações entre homem e mulher, adultos e crianças e a passagem da vida desde a infância até a morte. Parecia irônico que as estátuas lembrassem a barbárie justamente no país com um dos melhores índices de desenvolvimento humano.

Claro que isso é muito fácil de concluir para quem tem como referência o chafariz do Parque do Ibirapuera e “salvadores da pátria” imortalizados do Oiapoque ao Chuí. É necessário compreender o contexto histórico em que a obra foi produzida antes de afirmar qualquer coisa parecida.

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A Noruega conquistou sua independência em 1905 e, na tentativa de construir uma sólida identidade cultural que unisse a nova nação, promoveu obras artísticas que transmitissem os valores de sua cultura.

A primeira metade do século 20 foi palco de diversas políticas nacionalistas que se esforçaram para propagar valores históricos e culturais em figuras de fácil identificação. Enquanto ficamos com um Tirandentes no estilo de Jesus Cristo, Vigeland deu aos noruegueses rostos menos simpáticos. Suas esculturas foram elaboradas entre 1907 e 1949, mas a maior parte do parque só foi completada depois de 1939. Um ano depois o país foi ocupado pelos nazistas.

Um olhar mais atento às estátuas de Vigeland revela semelhanças com um dos períodos mais sombrios da história da humanidade. As figuras nuas, de perfil atlético, ressaltando temas como a família e a reprodução também eram utilizadas pela propaganda nazista como forma de exaltar características de uma “raça superior”.

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A principal e mais impressionante escultura é o “Monolito”, uma estrutura de 14 metros de granito erguida em direção ao céu, que representa 121 figuras lutando para alcançar o topo. A obra começou a ser construída em 1924, levando 14 anos para ser finalizada. Embora simbolize o desejo humano de se aproximar do divino, é assustador como o monumento lembra as imagens das pilhas de corpos fotografadas nos campos de concentração após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A aceitação do parque gera controvérsias entre os noruegueses. Enquanto alguns se orgulham de seu Michelangelo, outros questionam que tipo de imagem estão projetando de si mesmos.

Antes de condenar o pobre Vigeland, que morreu antes de ver seu parque completo, é bom aprender um pouco com suas estátuas. O apego radical a valores tradicionais despertou eventos catastróficos no último século. É preciso entender essas ideias dentro de seu contexto para que as figuras de Vigeland permaneçam no passado.

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COMENTÁRIOS:

Oldwoman Passing By

Oldwoman Passing By  comentou 1 ano atrás

Uau, obrigada por essa aula. Eu amei as estátuas e fotografei várias (num dia de nevasca, quase patinando no gelo), li rapidamente algo sobre. Mas, você disse muito mais. Adoro isso, saber mais sobre as coisas que vejo.

Caio Martins

Caio Martins comentou 1 ano atrás

Muito bacana mesmo!!

Juana Paula

Juana Paula comentou 1 ano atrás

Estive neste parque há dois anos com guia e tudo. Então pude entender melhor o que o artista quis trazer a tona. Acredito que somente pela arte ele já tem seus pontinhos comigo rs. O modo como ele retrata o inicio e o fim da vida humana é fantástico. Acho que mostra que aquela é a nossa condição, mas não estamos preparados para aceitá-la.


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