Centro de Treinamento Para a Vida Errante


 Lucca, Grosseto, Toscana, Itália  

E lá estava eu, sacolejando em um ônibus a caminho de uma morte horrível longe de casa. Ou pelo menos era isso o que eu pensava. Os outros pensamentos eram que ninguém jamais saberia o que aconteceu comigo, que eu tinha fracassado logo no começo da minha viagem e como eu tinha sido estúpido. Eu chorava como uma mocinha.

Cinco dias antes a história era muito diferente. Uma menina com quem passei uma noite em Roma me deu uma passagem de trem até uma cidade chamada Lucca. Podem me chamar de “Deuce Bigalow”, mas era ou isso ou pular trens e correr o risco de ser preso, como aconteceria em uma parte futura da viagem.

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Eu tinha conhecido meus tios quando tinha apenas doze anos de idade. Não fazia ideia de como me receberiam ou o que pensariam da minha visita naquele momento. Estava morrendo de medo de não gostarem de mim, especialmente porque meu italiano tinha enferrujado muito ao longo dos anos sem prática. Mas eu precisava vê-los. Precisava visitar minhas raízes antes de sair em busca de mim mesmo.

Felizmente eu era filho do meu pai e neto do meu avô. Por isso fui recebido com refeições toscanas de família  que nenhum restaurante turístico pode servir. Cada vinho que bebi era feito ou pela minha família ou por algum amigo da minha família. Obras de arte engarrafadas que jamais estarão à venda em algum supermercado. E, como se a parte gastronômica não fosse o suficiente, eu ainda conheci as charmosas Lucca e Pisa, além de alguns povoados próximos como Collodi e Pescia. A vida tinha adquiro um ritmo mais lento, como uma sutil embriaguez depois do almoço. Talvez isso também se devesse ao fato que meu tio me dava vinho até no café da manhã.

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Infelizmente eu não poderia ficar lá para sempre. Seria muito cômodo e muito bom. Mas eu tinha que voltar ao meu propósito. Antes de ir embora, porém, meu tio me deu uma foto do meu avô com a minha idade. Ele tinha partido para o Brasil em busca de fortuna um ano mais novo que eu. Foi com ele que toda a minha viagem começou. Eu seguiria os passos de gigante daquele homem que eu só conheci por histórias. Aquela foto foi um dos maiores tesouros que encontrei pelo meu caminho.

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Para que eu não pulasse trens, meu tio me deu uma passagem até Grosseto. O que eu faria em Grosseto? Pegaria um ônibus para Arcidosso onde eu tinha ouvido falar de uma comunidade anarquista. Da minha família até a hospedagem que eu possuía em Nápoles, onde eu pretendia pegar um navio e cruzar o Adriático, existia um intervalo de cinco dias. Estudando os mapas e checando todas as minhas opções de teto, minha melhor escolha era aquela comunidade.

O problema é que eu escrevi para a comunidade e não tive resposta. Então, não sabia se seria aceitou ou não. Acreditava que sim, afinal, você tem que ser muito cuzão para fechar a porta no inverno a um viajante perdido.

Entretanto, quando estava sacolejando no ônibus, que era o último que subia pelas montanhas, uma nova realidade me veio em mente. Eu comecei a perguntar para os passageiros se alguém já tinha ouvido falar do lugar para onde eu estava indo. Uma comunidade anarquista em uma livraria debaixo de um castelo medieval. Ninguém sabia de nada. E aí que começou meu desespero, que só aumentou quando me disseram que não havia nenhum albergue ou um abrigo em Arcidosso. Se esse fosse o caso, eu morreria de frio naquela noite.

O ônibus foi esvaziando, deixando as pessoas pelos povoados nas montanhas até chegarmos à última parada: Arcidosso. Eu tremia, tanto de frio quanto de medo. Mas só tinha uma coisa a fazer, que era seguir em frente. Eu respirei o ar frio e engoli em seco. Vi a lua brilhante no céu e comecei a baixar meus olhos. E foi então que eu vi a torre de um castelo medieval. Talvez a comunidade existisse!

Corri para o que poderia ser minha salvação, e cheguei diante de uma porta de madeira onde dois caras fumavam.

– Eu estou procurando uma comunidade em uma livraria – disse para eles em inglês.

– Você é brasileiro, não é? – um deles perguntou. – Entre, nós estávamos te esperando. Temos sopa quente e a lareira está acesa aí dentro.

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Eu sobrevivi! Ninguém entendeu nada quando eu entrei comemorando como um louco e me apresentando para todo mundo. Só eu saberia o que tinha sido viajar com a Morte flertando comigo e a sensação de seguir em frente e continuar a viver.

Naquela comunidade eu abriria minha mente e me tornaria um “vagabundo” errante por completo. Em primeiro lugar porque não existia energia elétrica nem água quente... ou seja, adeus confortos da modernidade e frescuras higiênicas como banho. Durante a noite eu e meus novos colegas desceríamos do nosso castelo com baldes, procurando comida aproveitável nos lixões do povoado. Cada um ali me ensinaria alguma coisa. Ou me daria sugestões de rota para Jerusalém. Eram meus colegas de cela, na minha prisão voluntária de cinco dias no frio das montanhas.

Naquela comunidade eu viraria vegetariano por falta de opção, resistiria às investidas da namorada irlandesa do líder da comunidade (apenas para depois descobrir que eles tinham um relacionamento aberto), tomaria chá ao modo turco, conheceria um espanhol revolucionário que escreveu um livro chamado “O Mistério da Docilidade” e descobriria uma fonte de águas termais chamada Bagni di San Fillipo. Ao sair de lá eu estaria mudado. Minha prisão na verdade teria sido um centro de treinamento. O Centro de Treinamento para a Vida Errante.

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COMENTÁRIOS:

Sandra Goldfajn

Sandra Goldfajn comentou 10 meses atrás

Sensacional!!!!! hahaha :)


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